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Opinião - Edição 552 - Jornal NippoBrasil

Empresas brasileiras contra a maré

Alexandre Ratsuo Uehara
Juliano A. S. Aragusuku

Os investimentos diretos estrangeiros (IDE) do primeiro trimestre de 2010 atingiram R$ 5,88 bilhões, apresentando uma redução de 12,2% em relação ao mesmo período de 2009, quando atingiram US$ 6,7 bilhões. Esses dados mostram que o ritmo de IDE continua decrescente e que a crise econômica que vem afetando muitos dos principais países que são origens desses investimentos (Estados Unidos, Japão e membros da União Europeia) tem levado a uma redução dos fluxos desses recursos no País.

Apesar dessa queda nos fluxos de IDE direcionados ao Brasil, alguns segmentos têm conseguido atrair mais investimentos. É o caso do setor de mineração, que apresentou de janeiro a março de 2010 um crescimento de 174,5% no volume de IDE em relação ao mesmo período do ano passado, saindo de US$ 275,7 milhões para US$ 754 milhões. Outro setor que cresceu nesse período foi o de extração de petróleo e gás, que acumulou apenas no primeiro trimestre US$ 367,4 milhões, com crescimento de 27,2%.

Esses dados não são indicadores de tendência, mas mostram que, apesar das dificuldades internacionais, diversos setores da economia brasileira são capazes de atrair novos capitais. Para se ter exemplos mais robustos, levantemos alguns casos do ano de 2009, em que, dentre os cinco setores que mais receberam investimentos na área industrial três apresentaram resultados positivos. O setor de veículos automotores apresentou alta de 124,4%, o de produtos químicos, 81,3%, e o de papel e celulose, 284,2%. Esses setores não apresentaram apenas tendência contrária ao fluxo de IDE, mas também alta bastante expressiva. Além desses, completam a lista o setor de metalurgia e o de derivados de petróleo e biocombustíveis, que sofreram pequenas perdas nas entradas de investimentos. No entanto, já no primeiro trimestre de 2010, o segmento de derivados de petróleo e biocombustíveis foi o que apresentou maior elevação de entrada de recursos, ou seja, de 284,6% em relação ao mesmo período de 2009, chegando aos US$ 740,4 milhões.

Entre os fatores que contribuem para a manutenção dos interesses das empresas em investir no País está o crescimento do mercado doméstico, como demonstram os investimentos realizados na indústria de veículos automotores que apresentou alta de 124,4% de 2008 para 2009. Esse setor tem apresentado tendência de crescimento nos últimos três anos, passando de US$ 871,7 milhões, em 2007, para US$ 964 milhões em 2008 e US$ 2,163 bilhões, em 2009.

De acordo com dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o licenciamento total de veículos automotores apresenta uma alta constante desde 2003. Em 2009, as vendas foram ainda alavancadas com a isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Tal medida proporcionou recorde nos números em 2009, com avanço de 11,35% em relação a 2008. Nesse contexto, podemos destacar em 2009 os investimentos em expansão, e o início da construção de novas plantas produtivas, como a da Toyota, na cidade de Sorocaba, e a da Effa Motors, representante da chinesa Hafei Auto, na cidade de Manaus.

Outro segmento que apresenta interessante atratividade é o da indústria química que recebeu US$ 1,5 bilhão em IDE em 2009, com crescimento de 81,1% em relação a 2008 e, de acordo informações da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), o setor planeja investir US$ 26 bilhões na Brasil até 2014 para poder atender também o mercado nacional.

Contudo, não é só o mercado doméstico que impulsiona os investimentos, no setor de papel e celulose, a alta no IDE foi de 284,2% com investimentos de US$ 770 milhões. Aqui, o foco está no mercado externo. De acordo com dados da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), a venda no mercado interno permanece estável, mas as exportações apresentam expressivo crescimento desde 2003. A explicação está na produtividade das árvores no Brasil. Apenas para exemplificar, na Escandinávia, onde estão localizadas Suécia e Finlândia, que apresentam produção equiparada à brasileira, são necessários 720 mil hectares para a produção de 1 milhão de toneladas anuais de celulose. No Brasil, para produzir a mesma quantidade de celulose, são necessários apenas 100 mil hectares.

Num período em que os fluxos de IDE estão se reduzindo, alguns setores da indústria brasileira estão nadando contra a maré, sustentados pelo dinamismo do mercado interno, mas sem esquecer a competitividade internacional. Essa realidade proporcionou altas nos fluxos de IDE à indústria de veículos automotores, à indústria de papel e celulose e à indústria química. Com projetos de longo prazo e planejamento estratégico, esses setores possuem potencial para manter seu crescimento, mesmo em tempos de turbulências.


Alexandre Ratsuo Uehara - Professor de Relações Internacionais da Faculdade Rio Branco

Juliano A. S. Aragusuku - Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação,
San Tiago Dantas, em RI da UNESP, UNICAMP e PUC-SP

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