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Opinião
- Edição 552 - Jornal NippoBrasil
Futebol e economia
Teruo Monobe*
Enquanto a
crise europeia corria solta, Dunga criava a sua própria crise
por aqui. Quem não discordou da seleção do técnico?
Brasileiros nunca deixam de mostrar as suas escolhas, mas neste ano a
lista oficial foi muito contestada. E isso é só o começo,
já que a pátria de chuteiras ainda não
está em campo. Quer dizer, daqui a pouco, o Brasil vai parar, só
voltando ao normal em julho. Mas, julho é mês de férias...
então, fica para outro mês.
Naturalmente,
muita gente gostaria de discutir futebol. Em vez disso, discute-se a crise
grega (ou europeia). Crise é uma coisa desagradável e esta
parece com a de 2008 pelas repercussões e pelo monte de dinheiro
que os governos e organismos internacionais estão colocando para
que não se espalhe. Como no futebol, é impossível
não discutir a crise, e é importante comentar as possíveis
consequências. Pedimos desculpas por voltar ao assunto.
O articulista
da Folha, Marcos Nobre, levanta uma questão interessante: a crise
do euro não é um simples problema financeiro europeu. É
muito mais. O conceito de Comunidade Europeia foi criado como alternativa
à hegemonia norte-americana, um modelo econômico baseado
em um capitalismo europeu e que foi prejudicado pelo seu próprio
conceito de isonomia que fez que países diferentes fossem tratados
como iguais. O limite de déficit público era impossível
de ser adotado por certos países, e acabou sendo o ponto fraco.
Como diz o
articulista, é uma pena que o modelo esteja desmoronando. Não
significa, porém, que o euro deixe de ser a moeda única
da União Europeia, nem que a própria UE vá desaparecer.
Mas, o conceito de desenvolvimento em bases sociais vai sofrer um baque,
além de ameaçar o progresso da integração
total como havia sido imaginado no início. Além de tudo,
os principais países já começaram a discordar entre
si. A população, idem. Governos mais poderosos vão
ter de elevar os gastos para financiar os mais fracos.
Como metáfora,
vale o exemplo do casamento: permanecer juntos na alegria e na tristeza,
até que a morte os separe. Não que o euro ou a UE
vão se separar, mas na fase da alegria parecia que tudo corria
bem. Agora, além da tristeza, a briga. E sobrou para a Turquia,
que estava na fila para se tornar país-membro vão
lembrar até que o país é de maioria muçulmana,
que só uma parte é europeia, etc., etc.
Já o
economista Alexandre Schwartsman, da Folha, acha que os efeitos da crise
não devem contaminar a atividade econômica de forma tão
intensa como em 2008. Embora certos países da UE estejam passando
por crise de crédito, os montantes não são comparáveis.
Além disso, há mais transparência com relação
às instituições financeiras envolvidas, o que não
ocorreu no caso norte-americano (leia-se Lehman Brothers).
E o Brasil?
O Brasil está bem na fotografia, está até entrando
com dinheiro para ajudar os países a saírem da crise. Melhor
ainda, as empresas brasileiras não tinham exposição
em derivativos de câmbio, como ocorreu em 2008. Os exportadores
vão até ganhar com a possível desvalorização
do real. Mas, como lição da crise (dos outros), é
preciso reduzir o déficit público que tem aumentado assustadoramente.
Em resumo, o governo tem de se conscientizar que toda crise tem ligações
que ultrapassam as fronteiras.
Enquanto a
população reage violentamente na Europa aos ajustes impostos
pelos organismos internacionais, parece que, infelizmente, isso não
está comovendo nossos políticos. É preciso brecar
a onda de bondades dos parlamentares, que querem virar papais noeis
temporãos. Essa ideia de criar o ministério das Olimpíadas,
com a contratação de quase 500 novos funcionários
é mesmo absurda. É melhor discutir a seleção
de Dunga.

*Mestre em Administração Internacional e doutor pela USP
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