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Opinião - Edição 553 - Jornal NippoBrasil

De quem é a crise?

Teruo Monobe*

Crise é sempre crise. E, como tal, provoca as conhecidas consequências: baixo desempenho da economia, problemas sociais, inadimplência das empresas, e quem paga é a sociedade como um todo. A procura dos culpados pela crise nesses momentos é natural, e, muitas vezes, os indivíduos acabam culpando o “mercado”. Os intelectuais de esquerda vão além: a crise é do capitalismo, que, para eles, já se esgotou. Só se esquecem que, com todos os seus defeitos, não se achou coisa melhor do que esse regime econômico.

Embora os resultados das duas crises, a de 2007/2008 e a atual, pareçam ser semelhantes, elas são diferentes na origem. A crise passada foi resultado de uma combinação de fatores associados ao funcionamento das finanças mundiais: crédito imobiliário (principalmente nos Estados Unidos), regulação financeira, controles financeiros frouxos, especulação exacerbada. A atual crise, porém, tem raízes na má gestão financeira dos governos, que, dirigidos por políticos, não têm a visão dos estadistas. Ainda falta muito para o mundo ficar sossegado.

Agora, novamente, os governos europeus e organismos internacionais de ajuda estão despejando muito dinheiro para salvar a moeda (o euro) de uma derrocada. Por tabela, o dinheiro também serve para salvar a União Europeia, cuja concepção já faz 50 anos. Curioso é que são os governos que provocaram esta crise, ao gastarem mais do que arrecadam, procurando financiamento para fechar as contas. E agora, quem ajuda o governo? Sobrou para os governos mais sérios (mas nem tanto), que têm menos endividamento.

Em seu artigo no Estadão (“Pânico agora ou pânico mais tarde”), Kevin Hassett, da Bloomberg News, ao analisar a atual crise europeia, é bastante pessimista com relação a um possível final feliz. A Alemanha, país que tem sido muito crítico no caso grego, já está com endividamento de 79,2% do PIB e a França a 83,7% (ligeiramente acima de Portugal). Hassett conclui que logo vai haver um empréstimo de um devedor falido para outro falido. Convenhamos, é uma situação, se não surreal, no mínimo, esdrúxula.

Hasset vai além: que “durante a crise financeira, a crença nas grandes instituições financeiras foi restaurada porque os ativos tóxicos foram trocados por títulos governamentais. Se esses títulos se tornarem tóxicos, as opções de cura praticamente inexistem. O colapso pode ser total”. Ainda mais: “se os credores decidirem que os grandes governos ocidentais estão acumulando uma dívida insustentável e não têm vontade política de resolver o problema, o fim pode chegar amanhã”. É uma hipótese não muito remota e pode ocorrer realmente.

Sabe-se que os governos precisam refinanciar a dívida quase que diariamente (como o Brasil). Toma-se dinheiro do público ou de outros governos. A China, detentora de muitas reservas, certamente está financiando a dívida de muitos países, principalmente dos norte-americanos. Só que os chineses, como os investidores em geral, podem deixar de comprar papéis da dívida pública porque podem imaginar que os valores desses papéis podem testar patamares mais baixos. E aí, como os governos vão financiar sua dívida?

É bom nem pensar muito nas hipóteses de calote da dívida, mas é impossível fazer previsões do que ocorreria se os governos não tiverem como refinanciar a dívida. E, no total, a dívida dos governos chega a US$ 43 trilhões. Em 31 de dezembro do ano passado, só a dívida norte-americana chegava a US$13,77 trilhões, quase 100% do PIB. Em menos de 18 meses de governo, o presidente Obama já conseguiu levar a dívida norte-americana para estratosféricos US$17,5 trilhões para 2019. Na Europa, os números são ainda piores.

Mesmo citado como exemplo de país com finanças públicas em ordem, o Brasil não escapa ileso de uma vista mais detalhada. O endividamento público vai chegar a 62,9% do PIB no final de 2010. O economista Fausto Morey, na Folha, cita que “o que mais chama a atenção é o crescimento dos créditos concedidos aos bancos oficiais, em especial ao BNDES (...)”. “Entre dezembro de 2007 e março de 2010, o valor saltou de R$ 14,1 bilhões para R$ 149,9 bilhões, inacreditáveis 1.000% aproximadamente”.

O leitor pode tirar suas conclusões a partir do exposto. Fica no ar a questão: até quando os governos vão continuar a ser tão irresponsáveis a ponto de comprometer a vida dos cidadãos? Em artigos anteriores, havíamos pregado a Lei de Responsabilidade Fiscal para os governos europeus. Infelizmente, agora é tarde, pois nem as urnas punem os governos irresponsáveis. A crise, causada pelos governos, talvez seja pior do que a do mercado. Por isso, os governos não têm moral para estabelecer controles no mercado financeiro.




*Mestre em Administração Internacional e doutor pela USP
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