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Opinião
- Edição 538 - Jornal NippoBrasil
O ano do tigre e o G-2
Teruo Monobe*
Neste início
do ano do tigre, a bola da vez continua sendo a China, não o Brasil.
Vale repetir: a China nunca foi um tigre asiático, países
que cresceram rapidamente a partir de 1970, exceto o Japão. Isso
porque a China só começou a crescer na década de
1990, bem depois que se havia criado o termo. Mas conseguiu ser a letra
C do Bric, mesmo assim, a última letra da sigla. Em
termos de crescimento econômico nas últimas décadas,
o desempenho chinês é impressionante, vai ser difícil
algum país chegar perto. A questão agora é até
onde vai o fôlego.
Já comentamos
que 2009 foi o ano do boi, ou da vaca (é o mesmo ideograma). Só
Wall Street pôde lembrar o ano do boi, pois o mercado esteve em
alta (no jargão de bolsa, bull market). A economia
americana, porém, esteve mais para a vaca, e esta foi mesmo para
o brejo. Só no último trimestre a economia foi bem, embora
o ano como um todo tenha sido muito ruim. Mesmo assim, a importância
dos Estados Unidos na economia global continua a ser muito grande. Daí,
falar-se em G-2 (Estados Unidos e China) e não G-20 (do qual o
Brasil faz parte).
Um artigo de
um professor da Universidade de Harvard (A China dominará
o mundo?) mostra aspectos interessantes. Diz o professor que 30
anos atrás a China não tinha nenhuma importância no
mercado global. Estava fechada, não tinha contato com o exterior,
exceto com países com quem tinha relações militares.
Hoje, o país comanda a nova revolução industrial
do mundo (dos custos mínimos), investe na África, América
Latina e tornou-se o maior exportador mundial. Além disso, diante
dos superávits comer-ciais, a China tem US$2 trilhões de
reservas.
Ainda de acordo
com o professor, a China é considerada um país pobre. Mesmo
que a renda média tenha aumentado no decorrer desses anos, ainda
está entre 1/7 e 1/8 dos norte-americanos, situando-se em nível
inferior ao da Turquia ou da Colômbia. Também, enquanto o
litoral chinês apresenta grandes aglomerados urbanos, boa parte
das cidades do interior ocidental é muito pobre. Mesmo assim, acredita-se
que o PIB chinês vá ultrapassar o dos EUA em 15 ou 20 anos,
mantido o desempenho econômico de ambos os países.
Numa comparação
entre os Estados Unidos e a China, também se deve verificar algumas
previsões não muito agradáveis para os norte-americanos.
A crise que pega em cheio os norte-americanos provoca algumas reações
interessantes. Não há dúvida que os oito anos da
administração Bush foram um desastre total, cujos reflexos
devem durar por algum tempo. Disso se aproveita muito bem os chineses
que batem seguidos recordes de superávit comercial com os Estados
Unidos, além de deter um volume elevadíssimo de títulos
do tesouro ianque.
Estudiosos
de vários países têm estudado o fenômeno chinês
e a decadência norte-americana, chegando a alguns questionamentos,
como, por exemplo, a respeito do padrão da liderança chinesa.
Os Estados Unidos são hoje a maior democracia política e
o país mais capitalista do mundo, dois predicados difíceis
de algum país ter ao mesmo tempo. Tendo o maior PIB do mundo, a
China poderia ser igual? Qual seria a proposta chinesa da nova ordem mundial?
No momento, existem muitas perguntas e dúvidas, mas nenhuma resposta
convincente.
Muitos sociólogos
acham que dificilmente a China vai se adaptar aos costumes ocidentais,
mais precisamente, às culturas política, econômica
e social do mundo ocidental. Pouca gente imagina que o renminbi (moeda
chinesa) vá substituir o dólar, que o liberalismo vá
ser adotado pela China, que o mandarim possa tornar-se a língua
universal. Enfim, é difícil imaginar que os Estados Unidos
deixem de estar no topo e que a China dite as regras no mundo. Por isso,
é mais fácil imaginar um mundo com dois protagonistas, como
o G-2.
A divisão
do mundo entre dois países, como o G-2, incomoda porque é
uma volta no tempo. Daí o interesse em se consolidar o G-20, embora
grupos como esse só sirvam para discutir, não para resolver.
Da mesma forma que o termo Bric já não tem sentido,
não se pode mais aplicar a expressão tigre asiático.
Pior para o Brasil que poderia propor o termo onça latina.
Como a onça só existe no Brasil, pelo menos, teríamos
o monopólio da expressão. Não é o monopólio
da solidariedade que a diplomacia brasileira queria no Haiti?

*Mestre em Administração Internacional e doutor pela USP
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