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(Ilustração:
Claudio Seto | Foto: Reprodução)
Sabe-se que Izumo-no-Okuni viveu bastante para os padrões
da época, mas não se casou |
Quem aprecia
as artes cênicas japonesas sabe que as três maiores representações
teatrais da terra do Sol Nascente são os teatros Nô, Kabuki
e Bunraku. Entretanto, poucas pessoas sabem que o teatro Kabuki - que
tem como característica fundamental a aceitação de
atores, excluindo as atrizes de sua prática - tem sua origem ligada
a uma dança criada por uma mulher: Izumo-no-Okuni.
História
Pouco se sabe
sobre a vida de Okuni. Ela mesma costumava apenas dizer que havia sido
miko (donzela dos santuários xintoístas) da região
de Izumo (província de Shimane). Seu nome passou a ser conhecido
e citado em documentos elaborados a partir de 1603 - ano em que o então
xogum Ieyasu Tokugawa venceu a famosa Batalha de Seki-ga-hara, unificando
o Japão e restaurando a paz no território. Nesse mesmo ano,
Okuni voltou com sua trupe à cidade de Quioto, após apresentações
de seus números de dança por todo o Japão, e presenciou
a decadência da arte cênica no contexto nacional. Artistas
tentavam se valer de seus atributos físicos para chamar a atenção
dos espectadores e foi essa postura medíocre que motivou Okuni
a criar um novo estilo de apresentação no palco.
Kabukimono
Para levar
algo novo à população, totalmente diferente do que
existia até então, Okuni organizou uma performance em um
palco montado ao ar livre em Shijô Gawara, Quito. Lá, ela
se exibiu com trajes masculinos e extravagantes e empunhando uma espada.
Junto a seu grupo de artistas, Okuni apresentou um novo estilo de dança
e fez uma representação cênica cheia de bom humor,
arrancando aplausos e muitos risos do público com diálogos
cômicos. A performance causou grande alvoroço entre o povo
de Quioto, que passou a chamar a encenação de kabukimono
- termo empregado no sentido de extravagante, excêntrico.
Vem daí a origem do termo hoje amplamente conhecido no Japão,
o Kabuki.
Foi assim que
Okuni, artista de grande talento, ao perceber a mudança da sociedade
de seu tempo, conseguiu criar, representar e transformar a dança,
fazendo dessa arte um entretenimento que alegrasse o povo, já tão
cansado de guerras entre senhores feudais.
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Vida
e mistério
Diz a lenda
que Okuni possuía um dom extraordinário para a dança
desde pequena. Por causa dessa habilidade, ela era querida pelas mulheres
da corte, que a chamavam para ocasionais apresentações nas
festividades realizadas pela nobreza.
Embora seja
um nome muito conhecido na história da arte japonesa, pouco foi
esclarecido sobre a vida de Okuni até os dias de hoje. Sabe-se
que ela viveu bastante para os padrões da época, mas, mesmo
assim, há controvérsias quanto à idade da sua morte
segundo alguns relatos, ela viveu até 75 anos; já
outros afirmam que a artista morreu aos 87 anos de idade.
Muitos acreditam
que ela voltou à sua terra natal depois de velha, tornou-se monja,
e teve uma vida calma dedicada à religião. Mas será
que uma artista nata, que, desde tenra idade se apresentou ao público
com danças atraentes, sempre procurando inovações,
exibindo-se com trajes masculinos, introduzindo canto nas danças
da época, o nebutsu-odori, assim como representações
cômicas e diálogos com a alma dos mortos, deixando os espectadores
em delírio, deliciados com artes antes nunca vistas, conseguiu
deixar o palco e retirar-se para uma vida pacata? Será que ela
não continuou dançando até a sua morte, encantando
muitos homens? Também dizem as histórias que Okuni teve
muitos amores, mas jamais se casou.
Em tempo, uma
última curiosidade: existem dois túmulos dedicados a Okuni:
um em Kizuki, Izumo; e outro no Templo Kotoin, em Quioto.
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