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Especial - Jornal Nippo-Brasil

Dança do dólar inquieta dekassegui
Oficialmente, segundo dados do Banco Central, em 2007,
foram enviados do Japão US$ 640 mi

Conservadorismo leva nikkei a apostar naquilo que se considera de baixo risco: poupança e dólar

(Texto: Susy Murakami/NB | Foto: Divulgação)

Em épocas de turbulência econômica, nem mesmo os grandes investidores sabem ao certo o próximo passo a ser tomado. Quem dirá o trabalhador ou o poupador comum com suas pequenas reservas guardadas a duras custas.

É o caso do dekassegui que pode não estar tão inteirado das negociações e dos desfechos de Wall Street, mas volta sua total atenção à variação do dólar. As economias feitas ao longo dos meses ou anos de trabalho ficam geralmente depositadas em bancos no Japão em moeda norte-americana. Quando o envio é feito para o Brasil, a quantidade em reais a ser recebida pelo destinatário depende da cotação do dólar no dia.

Se no dia 1º de setembro último o trabalhador enviou US$ 1 mil do Japão para o Brasil, recebeu R$ 1.640. Os mesmos US$ 1 mil no dia 2 de outubro virariam mais de R$ 2 mil. A cotação do dólar, só em setembro, variou cerca de 16%, deixando a moeda americana mais forte frente ao real.

Em 2007, chegaram ao País, oficialmente, US$ 640 milhões oriundos da terra do Sol Nascente. De janeiro a julho deste ano, foram US$ 389 milhões, de acordo com dados do Banco Central do Brasil.

Nas últimas semanas, alguns bancos que fazem o serviço de remessas Japão–Brasil registraram alta nos envios. No Banco Itaú, por exemplo, o aumento foi de 20%. Alguns brasileiros, no entanto, esperam elevação ainda maior. Outros dizem que, se tivessem mais, mandariam tudo. Mas será que essa é a melhor hora para apostar na troca da moeda?

O NB ouviu economistas e pessoas ligadas a bancos sobre o assunto.

A quebra de grandes bancos, as incertezas sobre o futuro da economia do país mais rico do planeta afetam mercados no mundo inteiro. No mês passado, a entrada de dólar no Brasil continuou a superar a saída, mas, mesmo assim, a moeda estrangeira valorizou-se surpreendentemente.

Segundo Francisco Pessoa Faria, economista da LCA, isso acontece em parte porque os investidores estão apostando no mercado futuro e os bancos preferem reter o moeda por causa de compromissos firmados em dólar. “Os bancos brasileiros estão comprando dólar. Então, esse dólar não está, digamos assim, disponível no mercado. Além disso, tem muito investidor estrangeiro que está apostando que, no futuro, o real vai depreciar ainda mais. E, quando eles fazem essa aposta, acaba tendo repercussão no presente”.

Até o fechamento desta edição, o dólar estava sendo cotado a R$ 2,17. A opinião dos economistas sobre a cotação até o final de 2008 variou um pouco, mas não foi inferior a R$ 1,60 nem superior a RS$ 1,80. Portanto, o momento atual é favorável à troca por real. “A expectativa do nosso departamento econômico para o final do ano para o dólar é em torno de R$ 1,80 e, para o final do ano que vem, de R$ 1,90”, diz Felipe Vaz, gerente de investimentos do Banco Real.

Para Walter José Kobori, da JKobori Investimentos, “a tendência, pela taxa de juros americana e pela atual situação dos Estados Unidos é de que o dólar não continue se valorizando. O patamar em que o dólar deve ficar, mantida as variáveis que conhecemos hoje, é entre R$ 1,70 e R$ 1,80”. Já para Pessoa, o valor deve ficar entre R$ 1,60 e R$ 1,70.

Todos apostam em uma volta à estabilidade da moeda norte-americana, com tendência de queda após o período de maior agitação pelo qual passa o mercado no momento.

 
E o que fazer com o montante convertido?

As possibilidades de investimentos no Brasil estão mais seguras, desde que o País alcançou a estabilidade econômica. O conservadorismo, no entanto, leva o dekassegui a apostar naquilo que considera de mais baixo risco: o dólar e a poupança. “Para se ter uma idéia, um comparativo que fazemos para clientes com o dólar mostra que, se eu tivesse colocado 1 real em janeiro de 1999, acompanhando a variação da moeda até o mês de agosto [2008], descontando a inflação, o meu 1 real estaria valendo hoje por volta de 62 centavos”, afirma Felipe Vaz, gerente de investimentos do Banco Real.

Apostar no real e aplicá-lo em renda fixa, como CDB (títulos de renda fixa) e títulos do governo federal, pode ser uma boa alternativa, principalmente com os juros altos no País. Os bancos já estão dando essa possibilidade para quem está no Japão. Recentemente, o Itaú lançou a opção de depósito a prazo em reais, no qual o cliente aplica com juros do Brasil.

A compra de ações na Bolsa de Valores não precisa ser descartada em épocas de pouca turbulência, mas é preciso cautela. Quem tem dinheiro na bolsa nesse momento não deve entrar em pânico. “Quem tiver dinheiro em bolsa e não precisar dele não o tire agora. E aí é uma espera um pouco mais longa para o final de 2009 ou meados de 2010”, aconselha Francisco Pessoa Faria, ecoomista da LCA.

Walter José Kobori, da JKobori Investimentos, foi dekassegui no início dos anos 1990 e, hoje, administra fundos de ações. A indicação dele é apostar em empresas consolidadas e ter paciência. “O dekassegui tem que olhar o mercado de ações como um mercado produtivo. Você tem que ter a visão de que está entrando no mercado de ações para ser sócio de uma empresa. Você não entra de sociedade em uma padaria ou em uma loja para ter retorno em dois ou três meses. Se você entra em uma parceria com uma empresa, por menor que ela seja, você está esperando o retorno de quatro ou cinco anos. O mercado de ações é exatamente isso”.

É bom sempre lembrar, e os economistas alertam para isso, que a economia não é uma ciência 100% previsível. As previsões valem para um cenário considerado esperado dentro das atuais possibilidades.

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