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Caderno Lendas do Japão

De como o demônio vermelho chorou

(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)

Era uma vez, uma única vez no mukashi banashi (antigas histórias do Japão), que havia um jovem Akaoni (demônio vermelho) bonzinho, simpático e muito amável. Ele morava sozinho, isolado, numa caverna da montanha, próximo de uma aldeia. Na verdade, ele havia sido expulso dos fundões da serra, por causa de seu jeitinho dócil de ser. Os outros demônios, que tinham a fama de cruéis, violentos e maldosos, discriminavam-no e tocaram para perto da civilização. Afinal, um demônio meio maricas era algo inconcebível para os temidos onis do velho Japão. Então, só lhe restou um amigo, Aooni, mas este demônio, por ser azul, morava em outra montanha, onde residiam os demônios da cor dele.

Akaoni, uma vez que não era aceito entre seus semelhantes, alimentou o sonho de viver amigavelmente entre os seres humanos. Queria travar amizade com o povo da aldeia que existia próximo de sua caverna. Porém, embora bonzinho, ele tinha chifres na cabeça, a pele vermelha e a cara feia demais para o gosto das pessoas. Por isso, o povo da aldeia temia sua presença nas proximidades e evitavam passar perto de sua caverna.

Uma bela manhã de primavera, quando a montanha estava coberta de flores de cerejeiras, Akaoni acordou inspirado, escreveu uma placa e pendurou-a numa árvore na beira de uma picada, próximo de sua caverna: “Na caverna, mora um oni bondoso, cujo sonho é fazer amizade e viver em harmonia com o povo da aldeia. Vá visitá-lo, há bolinhos de arroz e chá para recebê-lo”.

Assim, Akaoni limpou a caverna e ficou ansiosamente esperando que alguém lesse a placa e aceitasse seu convite. Antes mesmo do meio-dia, dois agricultores curiosos apareceram na entrada da caverna. Akaoni recebeu-os com toda a cortesia e ofereceu-lhes chá com bolinhos sem esconder sua alegria em ter pessoas da aldeia em seu lar.

Porém, os agricultores que nunca tinham visto um demônio de perto, estavam desconfiados, achando que poderiam ser devorados a qualquer momento e saíram correndo antes mesmo de terminar o chá.

Akaoni ficou arrasado. Muito nervoso, foi retirar a placa e jogou-a precipício abaixo. Naquele momento, passava por lá o Aooni (Demônio Azul), o único amigo que Akaoni tinha. Ele procurou saber o que tinha acontecido e o Demônio Vermelho contou toda a história.

– Meu amigo Akaoni, os seres humanos não confiam em nós, onis. Por isso, não adianta tentar conquistar a amizade deles com gesto amável ou boa conversa. É necessária uma boa estratégia que os levem a confiar em você.

– Mas como seria isso?

– Tenho um plano. Vou até a aldeia, faço uma adorável bagunça, arrebento os móveis da casas e dou um tremendo susto neles. Aí, você aparece e me expulsa a socos e pontapés. O pessoal da vila vai achar que você é um herói salvador e será tratado com muito respeito e amizade.

Akaoni ficou meio receoso, pois aquela farsa era violenta demais para sua maneira de ser. Porém, arrastado pelo amigo, foi até a aldeia e ficou escondido.

Aooni entrou gritando na aldeia e revirando tudo que via pela frente. Diante da súbita invasão, o pessoal ficou apavorado e tremendo de medo. Aooni berrava, ameaçando devorar todos da aldeia, derrubando caixas e móveis ao chão, numa tremenda algazarra que deixava todos em pânico.

Vendo o povo apavorado, Akaoni saiu de seu esconderijo e agarrou seu amigo para que ele parasse de atormentar o povo.

– Dê um soco na minha cara! –disse baixinho o Demônio Azul.

– Eu não consigo fazer uma coisa dessas – respondeu o Demônio Vermelho.

– Se você não me der socos até me botar fora da aldeia, pensarão que é meu comparsa e lhe odiarão ainda mais.

Embora muito a contragosto, Akaoni saiu socando seu amigo até botá-lo fora da aldeia.

O povo, agradecido, baixou a cabeça para Akaoni e fez dele um herói protetor. Assim, as pessoas passaram a visitar sua caverna e tornaram-se suas amigas. Akaoni estava feliz da vida, pois finalmente havia realizado seu sonho de ser amigo dos humanos.

Porém, meses depois, começou a sentir falta do seu amigo Aooni. Os humanos eram boas pessoas, mas a maioria deles só pensava em como ganhar dinheiro. Descobriu que a amizade que as pessoas tinham por ele era apenas por interesse. Na verdade, o povo queria proteção, e não amizade.

Desde o acontecimento da aldeia, nunca mais havia visto o Demônio Azul. Então, movido pela saudade, resolveu visitar o amigo, que morava numa caverna na montanha vizinha.

Chegando na entrada da caverna, chamou Aooni, mas não obteve resposta. Entrou para verificar, mas não encontrou ninguém dentro da caverna. De repente, percebeu que havia uma carta fixada na parede. Então, apanhou-a e leu:

“Amigo Akaoni:

Sei que agora você vive feliz, contando com a amizade dos humanos da aldeia. Por isso, acho que nunca mais nos veremos. Pois, se o virem conversando comigo, vão desconfiar de você, o que não será bom. Por isso, eu resolvi ir embora. Jamais lhe esquecerei. Grande abraço de seu amigo Aooni”.

Akaoni leu a carta várias vezes, até seus olhos encherem de lágrimas. Akaoni chorou, pois havia perdido o único amigo sincero que tivera.


Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.
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