PORTAL NIPPOBRASIL ONLINE - 11 ANOS
-
Fale conosco: webmaster@nippo.com.br  
Central de atendimento: (11) 5575-0699  
(Horário de Atendimento das 9:00h às 18:00h de segunda a sexta)  
Sábado, 31 de julho de 2010 - 2h37
DESTAQUES:

  Busca
 
  NippoBrasil
   Edição Atual
   Editorial e Opinião
   Circuito
   Últimas Notícias
-
  Variedades
   Agenda
   Aula de Japonês
   Automóveis
   Artesanato
   Beleza
   Bichos
   Cultura-Tradicional
   Culinária
   Dekassegui
   Dinheiro
   Ensaio NB
   Entrevistas
   Especial
   Especial - Esportes
   Giro da Semana
   Haicai
   História do Japão
   História da Imigração
   Horóscopo
   Karaokê
   Lendas do Japão
   Mangá
   Personalidades
   Pesca
   Saúde
   TV NHK (Japão)
   Turismo-Brasil
   Turismo-Japão
-
  Esportes
   Especial - Esportes
   J.League 2010
   Copa do Mundo 2010
-
  Especiais
   Ikebana
   Bomba de Hiroshima
   Festival do Japão
-
  Autoajuda e Religião
   Budismo
     Milênio
   Roberto Shinyashiki
   Reflexão
-
  Empregos no JP
-
  Classificados
   Econômicos
   Empregos no Brasil
   Guia Profissionais
   Imóveis
   Oportunidades
   Ponto de Encontro
-
  Interatividade
   Fale com a Redação
-
  Correspondência
   Trabalhe conosco
   Anuncie no site
   O Jornal Nippo-Brasil
   Assine o NB
   Quem somos
Caderno Lendas do Japão

O Kappa e a estiagem - Parte 1

(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)

Antigamente, havia uma pequena aldeia japonesa ao lado de um lago e no meio da floresta. Esse lago ficou conhecido na região porque diziam que um kappa morava nela.

Kappa é um duende aquático do folclore japonês que vive pregando peças em seres humanos. Quando alguém nadava no lago, Kappa puxava-o pelas pernas, dando um susto. A simples aparição do Kappa, que é do tamanho de um menino e de aparência de um macaco com tartaruga, era suficiente para que as pessoas corressem de medo. À noite, ele saía e arrancava as verduras que os aldeões plantavam.

Certa ocasião, apareceu na aldeia o mago Shamon, da seita Zenchi. Ao saber das travessuras do Kappa, o gyoja (mago) foi até a beira do lago e chamou o duende aquático.

– Hei, Kappa travesso, apareça, quero falar com você!

O Kappa, que estava no meio das plantas aquáticas, resolveu, então, dar um susto no mago. Fazendo uma barulheira infernal, saltou da água diante o religioso. Porém, o mago não demonstrou nenhum medo:

– Escute aqui, Kappa, porque você vive aprontando com o pessoal da aldeia? Existe algum motivo para essa má-criação?

O Kappa ficou surpreso. Era a primeira vez que alguém dirigia palavras a ele sem medo, sem raiva, calmamente e com voz carinhosa. Ele experimentou uma sensação que nunca tivera e respondeu, emocionado:

– Sou infeliz e solitário. Sou o único Kappa da região. Há muito tempo, tentei fazer amizade com os seres humanos, mas todo tem nojo de mim, atiram pedras, correm de mim. Não sou peixe, nem gente, por isso estou sempre sozinho. A solidão é tanta, que me revolto e faço travessuras para extravasar minha angústia.

– Compreendo, é uma medida de desespero. Mas, se você continuar fazendo maldade, na próxima encarnação, nascerá em uma forma pior ainda.

– E o que devo fazer para nascer em forma de gente?

– Terá que praticar boas ações. Coisas que ajudem os outros – respondeu o mago.

Em seguida, o monge continuou sua peregrinação, deixando o Kappa pensativo.

No verão daquele ano, houve uma grande estiagem. As plantações secaram e, nos poços, poucas águas restaram. Desesperados, os moradores da aldeia reuniram-se na praça central e fizeram várias orações para que a Divindade da Chuva fizesse chover. O povo estava desesperado. Se a situação permanecesse imutável, todos morreriam de fone e sede.

De repente, da lagoa, cujas águas haviam desaparecido quase por completo, surgiu o Kappa e dirigiu-se à praça da aldeia. O povo, que estava rezando e lamentando a falta de chuva, ficou assustado, olhando a aproximação daquela criatura.

– Olhem, o Kappa vem em nossa direção!

O Kappa vinha abaixando a cabeça em sinal de cortesia, cumprimentando a todos pacificamente. Porém, quando chegou na praça, os aldeões pularam em cima dele com paus e pedras. Deram uma surra homérica, com chutes, socos, pauladas e pedradas, porém a criatura não reagiu. Deixou-se castigar pelas travessuras que tinha aprontado aos moradores.

Completamente arrebentado, o Kappa ainda foi amarrado com cordas. Com grande esforço, conseguiu levantar a cabeça e disse:

– Eu vim para rezar junto com os senhores...

O pessoal ficou boquiaberto com a afirmação. Porém, acostumados às suas travessuras, concluíram que se tratava de algum truque para enganá-los.

– Não pense que vamos cair na sua armadilha. Se quiser rezar, pode rezar à vontade, mas não vamos desamarrar a corda. Assim dizendo, os aldeões levaram o Kappa para o yagurá (palanque de tocar tambor) no centro da praça e deixaram-no amarrado onde todos poderiam ver.

Continua...

Comentário

Kappa é uma criatura que habita o imaginário do povo japonês. Ele é um duende aquático com cerca de um metro de altura, corpo de macaco sem pêlo e de pele esverdeada, pés com nadadeiras, cheiro de peixe, tendo nas costas um casco de tartaruga. Vive geralmente em lagos e riachos e seu raio de ação é sempre em torno das águas em que habita.

O alto da cabeça é côncavo e sempre tem água empossada. Dizem que, se essa água cair, o kappa perde toda sua força, tornando-se fraco e vulnerável.

Muitas histórias relatam tentativas dos kappas de agarrar cavalos e vacas, arrastá-los para dentro da água e sugar seu sangue. Todavia, sabe-se que eles deixavam a água para roubar melões e pepinos, estuprar mulheres e atacar as pessoas em busca de seus fígados. As pessoas acalmavam os kappas colocando os nomes de seus familiares num pepino e jogando-o como oferenda na água onde os kappas habitavam. Em algumas regiões do Japão, ainda hoje o povo joga pepino no rio, num ritual no dia 1º de junho.

Outra característica do kappa é que, assim como a serpente, ele detesta ferro. Quando algum instrumento de ferro, como foice, machado ou enxada cai na água, ele pede para que seja retirado. Assim que as pessoas atendem seu pedido, ele agradece, deixando peixes ou fórmulas para fabricar remédios na porta da casa de quem o atendeu. Muitas histórias atribuem ao kappa as fórmulas dos remédios existentes no Japão.


Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.
 Arquivo - Lendas
A fonte do saquê
O homem que casou com a raposa
A história de um velho lenhador
O poço das violetas
Sugaru, o homem que prendeu o trovão
A história de Ki no Ensuke
A batalha do general Yogodayu
O Roubo do Kannon Dourado - Parte Final
O Roubo do Kannon Dourado - Parte II
O Roubo do Kannon Dourado - Parte I
O amigo do Oni - Parte Final
O amigo do Oni - Parte I
O rapaz que casou com a Deusa dos Alimentos
Jirohei no Sakura no Ki - Parte Final
Jirohei no Sakura no Ki - Parte 1
Urihime e a Yamanbá
O espírito do salgueiro -
(Yanagi tamashi no Nyobo) – Parte I
O espírito do salgueiro -
(Yanagi tamashi no Nyobo) – Parte Final
A lenda de Genjoraku
Amazake, o doce saquê
Fuezuka no Kaidan - Parte 1
Fuezuka no Kaidan - Parte 2
Fuezuka no Kaidan - Parte Final
Abe-no-Seimei e a canforeira
Yorimasa e o monstro Nue
O saco de arroz encantado
Kin no ono (O machado de ouro)
Osho-san, Kozô to Kitsune - Final
Osho-san, Kozô to Kitsune - Parte 1
Shirafuji Guenta e o Kappa - Parte Final
Shirafuji Guenta e o Kappa - Parte 1
O Kappa e a estiagem - Final
O Kappa e a estiagem - Parte 1
De como o demônio vermelho chorou
A sacola furada - Final
A sacola furada - parte 1
Kanzakura, a Cerejeira Sagrada
A Princesa e o Dragão
Esterco de pedras
Medo de manju
Kannon, a deusa da Misericórdia
As origens de Maneki-Neko
Nezumi no yomeiri
Namazu
Ikiryô, o fantasma dos vivos
O cachorro de Michinaga
O cavalo dos sonhos e as sete berinjelas
A lenda do Nobre Cachorro
Hariko Inu, o cão-guardião
Binbogami
Binbogami e o preguiçoso
O deus da Pobreza
Uri sennin
A moça e o pinheiro
Takarabashi, a ponte do tesouro
O guardião do tesouro
O Buda de madeira
O Tengu Azul e o Tengu Vermelho
O cúmulo da cortesia
O desejo de visitar o Grande Santuário de Ise e morrer
Hachizuke, o deus Inari
Kin no kamikazari
Shizuka-gozen e Sato Tadanobu - Final
Shizuka-gozen e Sato Tadanobu - Parte I
O incêndio de furisode
Um lírio de 33 flores
Ôoka Tadasuke e o caso do cheiro roubado
Zashiki Warashi
A Tartaruga e a Garça
O Kozo e a Yamanbá (Final)
O Kozo e a Yamanbá (Parte 1)
  © Copyright 1992-2010 - Jornal NippoBrasil - Todos os direitos reservados - www.nippo.com.br