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(Texto
e Ilustração: Cláudio Seto)
Há
muitos e muitos anos, havia um templo budista próximo de uma aldeia
rural no Japão. E o responsável por esse templo era um monge
conhecido por gostar de beber saquê (vinho de arroz). Era um monge
bonachão e muito querido pelos aldeões que diziam, em tom
de brincadeira: o chá do monge é o saquê.
Em suas andanças diárias visitando casas dos fiéis,
invariavelmente o pessoal da aldeia lhe oferecia a sua bebida preferida.
Certa
noite, depois de um bom papo e boas doses de saquê, o monge voltava
para o templo. Trazia na mão seu jantar numa marmita que uma boa
dona de casa havia lhe presenteado. Ele vinha alegre, com a cabeça
nas nuvens e cantarolando. Já perto do templo, chegou em frente
de uma jizô (estátua de pedra que existem a beira de estradas
no Japão e que representa um anjo budista, protetor dos pobres
e dos honestos).
Boa noite, Jizô-san, disse o monge embriagado.
Boa noite, monge respondeu a estátua de pedra esticando
o pescoço. E diante, do monge assustado, o pescoço da estátua
foi esticando, esticando e o Jizô ficou cara a cara com monge. Este
estava petrificado de susto, quando o Jizô abriu a boca e, com uma
enorme língua, deu uma homérica lambida na cara do monge.
Socorro, um Jizô mal-assombrado! dizendo isso, o monge
saiu correndo em disparada. Tal foi o susto, que sua embriaguez desapareceu
por completo.
O monge chegou ofegante ao portão do templo, segurando firmemente
sua marmita. Mas novamente ficou paralisado de susto. No portão,
havia um enorme tigre, que lhe fez uma pergunta:
Monge, qual você prefere: ser devorado ou dar-me essa marmita?
Sem pensar duas vezes, o monge largou a marmita e entrou correndo para
dentro do templo. Kozô, o acólito que abriu a porta vendo
o seu mestre esbaforido, perguntou:
O que aconteceu de tão apavorante Osho-san?
Foi terrível! Fui atacado duas vezes! Primeiro por um Jizô
mal-assobrado, depois por um tigre gigantesco!
Osho-san está embriagado ou foi enganado por truques ilusionistas
de um tanuiki (texugo) ou do kitsunê (raposa).
Será que foi artimanha desses animais encantados? Pois bêbado
não estou; se estava, curei-me no primeiro susto. Vamos dar uma
olhada.
Quando o monge e o acólito abriram a porta do templo e olharam
escadaria abaixo, não havia nenhum tigre. Lá estava uma
raposa comendo tranqüilamente a marmita do monge.
Fui enganado por artimanha de uma raposa disse o monge indignado.
Ao ver o monge, a raposa, que já tinha devorado toda comida, levantou
e foi embora, não sem antes dizer:
Obrigado, Osho-san, a comida estava ótima!
Fui enganado feito um tolo por uma raposa. Que vergonha! Enganado
feito uma criancinha! Que exemplo vão dizer os fiéis do
templo? Resolvi que nunca mais vou beber! assim, o monge parou
de beber e decidiu gastar seu tempo rezando dia e noite.
Os dias foram passando e Kozô percebeu que o monge já não
era o mesmo. Ele rezava dia e noite, lamentando a Buda o fato de ter sido
enganado pela raposa. Já não visitava mais os fiéis
na aldeia, não bebia e havia perdido aquele ar de bondoso bonachão.
Decididamente, havia se tornado um monge angustiado, fanático por
rezas e lamentações.
Kozô concluiu que o único meio de fazer o monge voltar a
ser o personagem carismático da aldeia, como era, tinha que ir
a forra com a raposa. Dar um merecido castigo nesse animal encantado.
Assim, numa noite, enquanto o monge rezava sem parar, o acólito
deixou o templo carregando um cesto nas costas. Foi para o campo e começou
a gritar:
Osho-san! Osho-san! Onde está o senhor? Será que
está embriagado e caído na beira da estrada?
Atraída
pelos gritos, a mesma raposa deu as caras no capinzal e foi seguindo o
menino entre as moitas de capim. Kozô percebeu que estava sendo
seguido, mas, fingindo de nada saber, continuou gritando:
Osho-san, Osho-san, vim buscar o senhor. Onde está, diga-me, por
favor!
Eu estou aqui Kozô! respondeu uma voz do meio do capinzal.
E surgiu o monge alisando sua barba branca e foi aproximando de Kozô.
O menino, muito esperto, olhou a sombra projetada pela lua cheia e viu
que o monge tinha rabo. Ficou com vontade de rir, mas segurou a gargalhada
e continuou com a farsa...
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