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Caderno Lendas do Japão

Fuezuka no Kaidan - Parte 2
O fantasma da flauta

(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)

Na primeira parte desta lenda, contou-se que Yoichi era um massagista cego de muito boa reputação na província de Izumo. Com uma bela casa próxima ao Lago Kumeda, Yoichi sempre foi muito amável e um verdadeiro mestre na arte do anma, a massagem tradicional japonesa.

Certo dia, Yoichi salvou uma garota que tentava se afogar na lagoa no caminho de sua casa. Ao ouvir a história da moça, chamada Ayako, que passava por necessidades e não tinha como se sustentar com seu modesto trabalho, o massagista cego propôs casamento e uma vida confortável a ela.

Ayako aceitou a proposta, mas logo começou a trair Yoichi com o ator de teatro ambulante Sawamura Tamataro. Ao saber do que ocorria, Yoichi foi imediatamente para sua casa, a fim de surpreender os amantes, mas, estranhamente, encontrou a porta de sua casa trancada...

Yoichi, então, deu a volta e tentou a porta do fundo. Estava igualmente trancada. Não havia maneira de arrombar a porta sem fazer barulho. O fato de estar tudo trancado era indício de que Asayo estava lá dentro com seu amante. Pois, em casa de cego, raramente a porta era trancada.

Yoichi, que era muito amável, experimentou uma sensação de ódio. Sentiu vontade de surpreender os amantes e matá-los à paulada. Com uma força sobre-humana, conseguiu subir no telhado e pretendia entrar pela janela do sotão. Quando forçava a janela, uma tábua que estava podre arrebentou e o massagista despencou, rolando para trás, precipitando-se para o chão. Caiu de cabeça sobre uma rocha do jardim, fraturou o pescoço e teve morte súbita.

Asayo e o ator, que haviam adormecido, após uma intensa sessão de amor, acordaram com o barulho e foram ver o que tinha acontecido. Então, encontraram o corpo do pobre Yoichi sem vida.

Não relataram nada às autoridades. Arrastaram seu corpo até o lago e o jogaram lá dentro. No dia seguinte, alguns transeuntes descobriram o corpo e acharam que ele havia morrido afogado. Não era difícil imaginar que o cego havia desviado do caminho e caído de cabeça no lago, exatamente numa região cheia de pedras.

O barbeiro e o auxiliar ficaram quietos, pois se sentiam culpados, pensando que ele tinha cometido suicídio ao saber da traição da esposa.
O enterro ocorreu num clima de constrangimento geral. Muitas pessoas tinham vontade de esganar a esposa, que, apesar de tudo, ainda seria beneficiada, conforme a lei, ficando com ela a propriedade do cego.

Alguns meses depois, Asayo e o ator se casaram. Legalizado a situação, o povo da aldeia passaram a ver com certa simpatia o casal, que aparentemente era feliz.
Com o tempo, ninguém mais se incomodou com Asayo e seu novo marido. E o caso do massagista cego que era traído pela esposa caiu no esquecimento.

Tatari, a vingança do morto

Yoichi, o massagista cego, tinha um grande amigo chamado Okuda Ichibei, que mora na aldeia Minato. Eles foram amigos de infância e cresceram juntos. Quando Yoichi ficou cego, Ichibei ajudou-o a trilhar o caminho da massagem e construiu uma casa para ele na beira do Lago Kumeda.

Naquela época, as notícias viajavam lentamente e Ichibei não sabia que seu amigo estava morto. Certa ocasião, ao despertar no meio da noite, levou um susto ao ver um vulto junto de seu leito. Apurando os olhos, reconheceu que se tratava do seu amigo Yoichi.

– Há quanto tempo, Yoichi! Estou feliz em vê-lo, mas por que não me avisou que viria? Eu o teria recebido com refeição pronta e banho quente, mesmo a esta hora da noite. Mas não tem importância, vou chamar meu empregado e mandá-lo preparar uma sopa quente para você.

– Não se preocupe com isso, Ichibei. Eu não pertenço mais ao mundo dos vivos – disse o fantasma – O que você esta vendo é, certamente, o espírito de seu amigo Yoichi. Eu estou vagando sem rumo e assim continuarei até que esteja vingado daqueles que me fizeram um grande mal...


Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.
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