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Caderno Lendas do Japão

O Espírito do Salgueiro -
Yanagi tamashi no Nyobo - Parte I

Cláudio Seto*

Sanju-san-gendo é o nome popular para Rengeo-en, um templo foi fundado em 1164, na região oriental de Quioto, famoso por ter se iniciado com suas 1001 estátuas de Kannon, a deusa da Misericórdia, e hoje conta com 33.333 delas.

Antes que o templo fosse construído, em uma aldeia próxima, existiu uma enorme árvore de salgueiro. Gerações de crianças da localidade balançaram-se em seus galhos e brincaram de subir no seu tronco. No verão, os transeuntes descansavam à sua sombra e, à noite, encostados em seu tronco, muitos jovens casais trocaram juras de amor eterno. Enfim, o velho salgueiro fazia parte da comunidade e era testemunha centenária da história local.

Certa ocasião, o conselho de aldeões fez uma assembléia e manifestou a intenção de cortar a árvore e construir uma ponte sobre o rio que separava a aldeia em dois lados. Todos estavam de acordo, pois a centenária árvore oferecia um tronco grosso, que daria belos pilares de madeira para a ponte.

Heitaro, um jovem lavrador que tinha uma casa próxima da árvore, contrariou veementemente a decisão do conselho, dizendo que aquela árvore centenária era um símbolo da aldeia e que cortá-la era perder a identidade do local. As pessoas presentes na reunião concordavam com Heitaro, porém achavam que aquele salgueiro tinha o tronco mais grosso de todas as árvores da região, portanto daria ótima estrutura para a ponte.

Criado o impasse, a solução só veio quando Heitaro prometeu que ele sozinho iria à floresta e traria toras suficiente para construir a ponte que a aldeia tanto desejava.

Os aldeões ficaram satisfeitos com a decisão, pois secretamente todos tinham veneração pela velha árvore. Heitaro ficou muito feliz por impedir que cortassem aquele salgueiro que acostumava ver diariamente desde que nasceu naquela casa. Então, já na manhã seguinte, foi para a floresta colher material para construção da ponte.

Alguns dias depois, quando Heitaro voltava de seu trabalho, encontrou, perto do salgueiro, uma linda moça. Como pareceu que a garota estava apreciando a árvore, puxou conversa, entusiasmado.

– Essa árvore é centenária. Veja que belo formato ela tem!

A princípio, a garota mostrou-se tímida, mas, aos poucos, foi se acostumando e, assim, os jovens ficaram falando a respeito da árvore. Descobriram que tinham o mesmo pensamento a respeito do salgueiro.

Naquela noite, Heitaro não conseguiu pegar no sono. Seu pensamento estava totalmente voltado para a bela garota que encontrou junto ao salgueiro. Quem seria ela? Voltaria a vê-la? Sua mente foi bombardeada por perguntas sem respostas. Não havia dúvidas, era amor à primeira vista. No dia seguinte, Heitaro foi cedo para a floresta e trabalhou dobrado para ver se conseguia esquecer da garota. Afinal, era possível que jamais a visse de novo, pois sabia que não era ninguém da aldeia. Mas, ao retornar para casa ao anoitecer, lá estava ela, junto ao tronco do salgueiro! Desta vez, ela estava mais à vontade e convidou Heitaro para descansar encostado no tronco do salgueiro.

Heitaro aceitou o convite de bom grado e conversaram bastante, a ponto de ele declarar seu amor por ela.

Nos dias que se seguiram, Heitaro continuou se encontrando com ela junto ao salgueiro. Ela disse que seu nome era Higo e o lavrador a pediu em casamento. Por fim, ela concordou em casar com ele, desde que o moço nunca perguntasse sobre seu passado, parentes e amigos.

– Eu te amo de todo coração e alma. Não tenho passado, parentes ou amigos. Só posso prometer que serei uma boa e fiel esposa.

Heitaro não cabia em si de felicidade. Levou-a para sua casa e se casaram numa cerimônia simples. Os aldeões comentavam que Heitaro era um sujeito de sorte por ter conseguido uma esposa bela e trabalhadora. Um ano depois, nasceu um filho para aumentar ainda mais a felicidade do casal. Deram o nome de Chiyodo ao menino, que teve toda atenção de seus pais. E, na aldeia, comentavam que Heitaro, Higo e a criança eram, sem dúvida, a família mais feliz de todo o Japão...


Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.
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