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Caderno Lendas do Japão

O Roubo do Kannon Dourado - Parte II

Cláudio Seto*

Iganosuke, então, seguiu a viagem de olho nos passageiros. Aproveitando que o tempo estava límpido, circulou pelo navio, mostrando-se sociável. Num dado momento, sentou-se ao lado de um samurai jovem de aparência refinada, que fumava com uma longa piteira de ouro. Quando Iganosuke ia puxar conversa, outro samurai com aparência de aproximadamente 60 anos dirigiu-se ao jovem e disse:

– Sou um fumante inveterado, porém perdi, em algum lugar deste navio, minha pequena bolsa com a piteira e o tabaco. Se não for pedir demais, solicito por um momento o empréstimo de sua piteira e a doação de um pouco de seu tabaco.

O jovem samurai atendeu prontamente o pedido do outro fumante e este deliciou-se, com grande prazer a satisfação, de seu vício. Depois de satisfeita sua vontade, o samurai mais velho bateu a piteira no casco do navio, para esvaziar as cinzas. Para seu espanto, o porta-fumo caiu no mar, restando somente o cabo da piteira em sua mão. Ao saber que o gankubi (porta-fumo) era de ouro e, naturalmente, de grande valor, o samurai ficou totalmente confuso. Não sabia o que dizer e, mesmo que pedisse boas desculpas, aquilo não traria a piteira de volta.

O jovem samurai ficou furioso e, ao mesmo tempo, preocupado.

– O que vou fazer agora? A piteira foi um presente do senhor de nosso castelo. Ele me deu em agradecimento por eficientes trabalhos prestados por mim. Não se trata de um presente qualquer, e sim de um valoroso reconhecimento. Um símbolo de honra ao mérito. Como vou dizer que simplesmente emprestei a uma outra pessoa e esta deixou-a cair no mar?! Será interpretado como pouco caso que fiz ao valoroso símbolo de reconhecimento de meu senhor. Eu incorri à desonra. Foi um ato irresponsável da minha parte emprestar para você um objeto tão precioso.

O velho samurai ficou muito sentido ouvindo as desesperadas palavras do jovem e disse:

– O culpado de tudo fui eu e o único jeito de pagar dívida de honra é com a morte! Sabendo do meu suicídio, seu amo entenderá que a culpa não foi sua – dizendo isso, o samurai tirou seu braço e o ombro debaixo de sua roupa e sentou-se ao chão do navio para praticar o suicídio.

– A morte de um desconhecido nada significa para o clã ao qual pertenço. Foi a mim que meu senhor deu a piteira de ouro e fui eu quem a perdeu emprestando para você. Conseqüentemente, sou eu o culpado de tudo. E sou eu quem deve fazer o seppuku!

Assim, o samurai mais novo também sentou no chão e descobriu da cintura para cima para fazer o harakiri...


Claudio Seto foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor.
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