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Trabalhos
alternativos mudam a
vida de brasileiros no Japão
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Situação
de desemprego atual torna necessário buscar outras fontes de renda
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Nos 20 anos
do Movimento Dekassegui, muita coisa aconteceu. Grupos de brasileiros
vieram ao Japão e voltaram para o Brasil. Alguns fixaram residência
no arquipélago e outros ainda decidem se vão ou se ficam.
E quem permanece no país pensa de que forma deve fazer isso.
Muitos daqueles
que, a princípio, vieram para trabalhar como mão-de-obra
braçal começaram a mudar essa realidade. As motivações
são as mais diversas. O desemprego nas fábricas fez vários
brasileiros buscarem fontes de renda alternativas. Em outros casos, o
objetivo é a busca de realização profissional, a
necessidade de ficar mais tempo com os filhos, a concretização
de um sonho e até a mera casualidade de um hobby que se transforma
em um negócio próprio.
Você
acompanha, a seguir, as histórias e as motivações
de brasileiros que mudaram o rumo de suas vidas no Japão.
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| Produção
de bijuterias |

O melhor é a satisfação de fazer algo
que eu gosto, diz Adriana |
Foi por acaso
que Adriana de Lavor Queiroz Miyashiro, 28, de Toyoake (Aichi), envolveu-se,
há seis anos, com bijuterias artesanais. Comecei dando de
presente para as amigas. Depois, passei a vender e a conciliar com o trabalho
de kensa numa fábrica de autopeças.
Há um
ano, ela resolveu se dedicar exclusivamente à criação
e à produção de brincos, colares e pulseiras. Não
conseguia dar conta dos pedidos e também estava muito estressada
na fábrica, conta. Adriana abriu a Pink Bijoux, montou um
site na internet e, hoje, ainda mantém pontos-de-venda em lojas
de produtos brasileiros. As amigas também a ajudam na revenda.
Apesar de não
ainda ter o salário compatível com o qual recebia anteriormente,
ela está satisfeita. Minha vida ficou bem melhor, não
tenho mais problemas de saúde e estresse por causa da cobrança
de cotas. O melhor é a satisfação pessoal, de fazer
um trabalho que gosto. Na fábrica, ganhava dinheiro, mas não
me preenchia.
O horário
de trabalho também é ela quem faz. Sem filhos, Adriana prefere
trabalhar de madrugada, muitas vezes até às 4 horas. É
mais tranqüilo. De dia, deixo para resolver outras pendências,
como as vendas pela internet, banco, correio e casa.
O marido, que
continua trabalhando em fábrica, presta ajuda, principalmente quando
ela participa de eventos na comunidade. O primeiro foi uma feira, em maio,
em Nagóia (Aichi). De lá para cá, já percorreu
Mie, Toyama e Shizuoka.
Futuramente,
Adriana pensa em fazer um curso na área de design de jóias
para continuar o trabalho com bijuterias no Brasil. Já que
comecei aqui, vou até onde der, diz a brasileira.
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| Sabonetes
artesanais |

Lina Yamada levou meio ano
para desenvolver sua técnica |
Dezoito anos
no Japão e experiência em produção em fábrica,
preparação de bolos e até cuidado de crianças.
Há um ano, Lina Yamada descobriu, na fabricação de
sabonetes, uma boa possibilidade de negócio próprio. Eu
não podia trabalhar fora, porque precisava cuidar da minha filha
que tem deficiência auditiva, conta.
Residente em
Iina (Nagano), ela já tinha feito curso de produção
de sabonetes no Brasil, mas, no Japão, desenvolveu uma técnica
própria. Fui a uma loja japonesa e comprei um quilo de glicerina,
corante e algumas essências. O produto final só veio
seis meses depois e a venda dos primeiros sabonetes rendeu dinheiro suficiente
para comprar mais material. Tive que me informar quanto à
manipulação de certos aditivos no Japão, explica.
Para isso, a fluência da língua japonesa foi muito importante
porque, além das técnicas do Brasil não poderem ser
aplicadas no Japão, em terras nipônicas as regras são
muito rígidas.
Atualmente,
Lina vende sabonetes feitos à base de glicerina, corantes e fragrâncias,
incrementados com ervas, óleos, aveia, coco ou mel. As pessoas
compram para presentar, para uso próprio ou até para revender.
Apesar da facilidade
para produzir os sabonetes, para comercializá-los, Lina contou
com a ajuda de uma amiga. Desde a produção até
a venda, depende muito da pessoa envolvida. Eu não tenho jeito
para vendas e a Patrícia Makiyama acabou cuidando disso.
Há três
meses, Lina passou a ensinar suas técnicas em cursos itinerantes
realizados em todo o Japão, nos finais de semana. Um dia
de curso já é suficiente para que a pessoa possa trabalhar,
afirma ela.
Para a brasileira,
o bom desempenho do negócio próprio veio aliado à
descoberta do prazer do trabalho manual. Achei que tinha chegado
a hora de fazer algo por mim e descobri o que iria preencher o vazio profissional
que eu sentia, comemora.
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| Organização
de festas |

Iranilda está com a agenda lotada
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Na família
Ishibashi, a vontade de voltar para o Brasil é antiga. Eles já
tentaram se fixar em São Paulo, onde permaneceram por menos de
um ano, mas acabaram retornando ao arquipélago. Não
se junta mais dinheiro no Japão como antes, mas temos condições
de dar uma boa qualidade de vida aos nossos filhos, diz Iranilda
Ishibashi, 33, de Minokamo (Gifu).
Ela comanda,
ao lado do marido, um buffet de festas voltado para brasileiros há
cerca de três anos. Além de Gifu, graças ao empenho
no trabalho e à fama conquistada, a empresa presta serviços
em províncias vizinhas. No Brasil, eu já trabalhava
com decoração de eventos. Sempre gostei de criar e, aqui
no Japão, encontrei bons materiais para as festas e gostei do desafio.
Coordenando
todo o trabalho desde o início do evento, ela sugere o tema, produz
a decoração, encomenda e prepara os arranjos florais e faz,
com a ajuda de arubaitos (ajudantes que contrata para os dias de evento),
os comes e bebes. Iranilda e sua equipe sempre chegam ao local antes do
início da festa e ficam para a arrumação final. Quando
não temos ajudantes, eu e meu marido fazemos tudo sozinhos, desde
os salgadinhos até lavar a louça ao terminar a festa.
Driblando o
contínuo aumento dos alimentos matéria-prima para
seu trabalho e combustível para se deslocar aos eventos,
ela vai ajustando os projetos de festas e coquetéis para não
perder os clientes. Percebemos que os brasileiros não querem
deixar de fazer as festas, mas tentam cortar os custos, tirando algum
prato, sobremesa ou algum item que possa lhes parecer luxo, diz
ela. Mas Iranilda ainda não pode se queixar da falta de trabalho.
Com a agenda dos finais de semana lotada até o final de dezembro,
há muitos anos que a família não tira férias.
Ela conta que
o retorno financeiro não é tão compensador como quando
iniciou a empresa. Mas a produtora de eventos continua trabalhando, mais
pela paixão do que pelo dinheiro. Talvez ganhássemos
mais se nós dois trabalhássemos em fábricas, fazendo
muitas horas extras, mas, diante dessa crise, percebemos que o trabalho
pelas empreiteiras também não é 100% seguro. Gosto
muito do meu trabalho e não passamos fome!, brinca a brasileira.
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| Animador
de festas |

Dominar vários idiomas é importante para desempenhar
o trabalho |
Ele dorme cerca
de cinco horas por dia, estuda língua japonesa, assiste a desenhos
em espanhol e, eventualmente, tem até de decorar umas frases em
inglês. Quem vê tanto empenho em conhecer idiomas pode até
pensar que se trata de um tradutor. Nada disso. Roger de Andrade, 37,
de Yokohama (Kanagawa), é o palhaço Piero Pirulito em festas
e eventos.
Tudo começou
no aniversário de uma sobrinha. Durante uns cinco anos, trabalhei
em uma multinacional. Nos finais de semana, fazia eventos com minha esposa
e cunhados em São Paulo.
Mas a alegria
da interatividade com as crianças ficou para trás com a
vinda para o Japão, em 2005, e a rotina de 12 horas noturnas em
um bentoyá.
Roger retomou
o trabalho como Piero um ano depois, conversando aqui e ali
com organizadores de festivais brasileiros. Começaram a aparecer
convites para outros eventos e festas de aniversário, conta.
Além
do nariz do palhaço, da maquiagem, do jeito animado, e de um repertório
de atrações infantis que inclui fantoches, teatro
e gincana o brasileiro percebeu que, para atuar nesse ramo no Japão,
precisava de muito mais preparo. Tenho feito festas para peruanos
e brasileiros, com a presença de japoneses. Na última, os
clientes me falaram para decorar algumas coisas em inglês para falar
com as crianças americanas, explica.
Roger teve
também que aprender a lidar com as diferenças culturais.
A primeira festa foi algo quase que decepcionante, porque as crianças
se retraíram com a presença do palhaço. Tive que
saber lidar com isso, revela ele.
Segundo Roger,
todo o preparo não faz sentido se não existir o fator principal:
fazer por gostar. Se for só para preencher a renda do mês,
você não vai ser nada mais do que o balconista que acordou
mal-humorado. É preciso ter amor pelo que se está fazendo,
porque o palhaço participa do dia da criança uma vez, mas
ela guarda isso para o resto da vida, ensina.
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