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Ex-dekasseguis contam com apoio
de familiares no retorno ao Brasil
Casais descapitalizados, que acabaram de voltar do Japão, muitos com filhos, passam a morar com pais ou sogros
 

Dekasseguis retornados engrossam o número de famílias que vivem com auxílio financeiro dos idosos

(Reportagem: Cinthia Yumi/NB e Foto: Divulgação)

Uma pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que 65,3% dos idosos no País são arrimo de família. E é este público que é afetado pelo retorno em massa dos dekasseguis ao Brasil. Os retornados engrossam o número de famílias que vivem com o auxílio financeiro dos idosos, sejam eles pais ou até avós.

Esse é o caso da família Macedo, de Garça, interior paulista. Até dezembro do ano passado, a aposentada Clarice morava sozinha, ocupando o tempo com trabalho voluntário e academia de ginástica. Em janeiro, a crise financeira do Japão afetou diretamente a vida de Clarice no Brasil.

Ganhando muito pouco e sem perspectiva de melhorar a condição financeira no Japão, seu filho Cristian resolveu voltar ao Brasil com a esposa, Cinthia Mayumi, e os dois filhos. “Voltamos por causa da crise, bem antes da data programada. Nunca imaginei que o Japão ficaria nessa situação”, conta Cinthia.

Com a chegada da família, o quarto vago da casa de Clarice ficou cheio. É ela também quem banca todas as despesas da casa. “No total, ficamos quase quatro anos no Japão. Mas, com os dois filhos não juntamos dinheiro. Só temos um pouco de economia para arcar com os gastos das crianças. Até o carrinho do bebê pegamos emprestado de um conhecido”, diz Cinthia.

Segundo ela, uma conversa familiar já estipulou o tempo que ela e o marido terão para encontrar um novo emprego no Brasil: cinco meses. “Minha sogra disse que tem economias e que dá para aguentar esse período. Mas daí em diante, não sei como será.”

Para amenizar os gastos na casa de Clarice, a família de Cristian janta todas as noites na casa dos pais de Cinthia. “Fico mais à vontade na casa da minha mãe. Mas o Cristian não. Então decidimos morar na casa da mãe dele mesmo.” A adaptação na nova rotina inclui alguns sacrifícios, como ter de usar o transporte público e não frequentar restaurantes nos finais de semana. “No Japão tínhamos nosso carro. Aqui ainda não deu para comprar. Lá íamos comer fora todo fim de semana. Aqui não dá, é muito caro”, lamenta a nikkei.

Em situação semelhante está a família Silva, de Álvares Machado, também no interior de São Paulo. Dos oito anos de casados, a nikkei Ieda, 24, e Adriano, 32, viveram quase sete anos no Japão. Com tanto tempo de trabalho, eles estão em situação mais confortável, com recursos suficiente para o sustento nesses primeiros meses no Brasil.

No país há dois meses, o casal que tem uma filha de 8 anos vive com os pais de Adriano. “Eles nos cederam o quarto deles que é maior e se mudaram para o menor”, conta Ieda.

O pai de Adriano, que é lavrador, ganhou reforço nos 10 hectares de plantação de feijão, milho e amendoim. “Enquanto não conseguimos trabalho, o Adriano ajuda o pai na roça e eu cuido da Aninha”, conta Ieda.

O casal pretende comprar uma casa própria e um carro. Mas aguarda por uma boa oportunidade de negócio. Antes disso, deve se dedicar a cursos profissionalizantes, de conclusão do colegial ou até preparatórios para concursos públicos. “Embora a gente tenha dinheiro para ajudar com as despesas de casa, estamos fazendo uma série de restrições para economizar”, continua Ieda.

Entre as restrições está passar longe do shopping center, evitar restaurantes e deixar de comprar cosméticos de marca. “Arroz japonês então, nem pensar. É caro demais”, conta.

No entanto, Ieda destaca o lado positivo dessa convivência em família. Na opinião dela, é importante respeitar os hábitos e horários dos donos da casa para uma convivência pacífica. “Não é como estar na minha própria casa, mas aqui fico à vontade. Minha sogra é um amor. E também tem a companhia do meu cunhado, que brinca com minha filha”, conta.

 
Respeito e diálogo são imprescindíveis

Respeito e diálogo são o caminho para melhorar o convívio em família, atesta Ângela Herrera, psicodramatista especialista em Terapia Familiar e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Estudo da Família da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). No caso dos dekasseguis retornados, que muitas vezes são obrigados a voltar para a casa dos pais ou sogros, é necessário ter paciência no reestabelecimento dos vínculos afetivos em família. “Tanto quem recebe em sua casa, quanto quem está indo morar de favor, tem de ter paciência e tentar dialogar”, opina.

A profissional ainda atenta para outro agravante: o ex-dekassegui nesse momento de crise está tomado pela sensação de fracasso. O resultado desse sentimento somado à falta de dinheiro poderá ser a multiplicação dos casos de desestruturação familiar. “O desemprego é consequência da crise, mas a cultura do japonês e do descendente faz com que ele leve essa perda à esfera pessoal. Assim, ele se sente um fracassado. Ou seja, a readaptação no Brasil é mais difícil do que a adaptação no Japão, já que nesse último caso havia uma expectativa de melhorar as condições de vida”, compara.

E nesse cenário de sentimento de fracasso e uma certa carência, o dekassegui não deve ter pressa em reestabelecer os vínculos familiares, pois pode parecer artificial da parte dele. “A aproximação é um processo lento. Imagine um filho que estava longe do pai. De repente esse pai chega querendo ser um amigo íntimo”, exemplifica.

Outra dica importante da profissional é que as pessoas tenham consciência de que a vida familiar nunca será igual ao que já foi no passado. “As pessoa mudam sempre. Então, uma das piores armadilhas para a frustração é um ex-dekassegui voltar para a casa dos pais, por exemplo, e achar que tudo será como era antes.”

 
Onde buscar ajuda

Uma boa saída para o ex-dekassegui é procurar por ajuda de profissionais especializados. Universidades públicas e particulares, centros de saúde e Ongs oferecem atendimento gratuito de psicologia e terapia individual ou em grupo. Mas, é bom saber, que de maneira geral, esses lugares têm fila de espera e que é necessário marcar uma entrevista prévia para uma triagem. Veja alguns locais:

Serviço de atendimento psicológico da USP
Av. Professor Mello Moraes, 1721, Bloco D, Cidade Universitária, São Paulo
Tel: (0xx11) 3091-4172 - Atende todas as terças-feiras, das 17h30 às 19h30

Clínica de Psicologia da PUC/SP
Rua Monte Alegre, 961, SP - Tel: (0xx11) 3670-8040
Atende de segunda a sexta-feira, das 8h às 21h30 - Obs: É cobrada uma tarifa de R$ 100

Clínica Social de Terapia Familiar Vinculovida
Rua Loefgreen, 528, Vila Mariana, São Paulo - Tel: (0xx11) 5083-8410
Atendimento durante a semana, no período noturno e aos sábados e domingos

Clínica de Psicologia da Universidade de Mogi das Cruzes
Av. Dr. Cândido Xavier de Almeida Souza, 200 - Tel: (0xx11) 4798-7133
Atendimento somente no período noturno, a partir das 19h30 - agendamento para primeira entrevista somente às quartas-feiras

Centro de Psicologia Aplicada da Universidade Federal do Paraná
Praça Santo Andrade, 50, 1º andar, sala 12, Curitiba - Tel: (0xx41) 3310-2614
Atende de segunda a sexta-feira, das 9h às 20h

Clínica Psicológica da Universidade Estadual de Londrina
Rodovia Celso Garcia Cid, Km 380, Londrina - Tel: (0xx43) 3371-4237
Só abrirá inscrição em agosto e para o ano de 2010

Clínica Psicológica da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
Av. Rio Branco, 1.270, Corumbá - Tel: (0xx67) 3234-6879

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